um_sonho_amarelo

By Yvens Giacomini

Quase todo mundo já teve um desejo utópico, não é verdade? Ter um carro que voa, descobrir um país feito de sorvete, se teletransportar do trabalho para casa em segundos…Bom, o meu era que o mundo inteiro fosse regido pela lei real da justiça. A justiça que traria harmonia, paz e, conseqüentemente, progresso para o território e população. Certo, pode ser bem difícil que isso aconteça enquanto eu estiver vivo, caso tudo continue como está, mas hão de concordar que pelo menos uma vez vocês já pensaram nisso.

Quando eu era criança, eu custava a entender por que “quem” tinha construído as cidades não as tinha feito planas e geométricas, como eu fazia no videogame, jogando Simcity (jogo simulador de construção e gerência de cidades). Seria tão mais fácil se locomover na cidade a pé ou de carro (caso ainda fosse necessário)! E seria legal também se o comércio fosse separado das residências, que por sua vez seriam terrenos espaçosos e adequados para cada cidadão poder constituir sua família, feliz, sem ter inveja de nada, por justamente ter as mesmas possibilidades e direitos de todos os outros cidadãos.

E eu continuava: nesse lugar perfeito não se usaria dinheiro, todos trabalhariam em função de todos, fariam o que são aptos e o que gostam de fazer. Sem pagamentos. Apenas pela certeza de que – insisto novamente – ele teria direito a tudo o que todos têm direito. Assim, também não existiriam marcas e nem produtos concorrentes, dessa forma, toda pesquisa e progresso seriam voltados para o bem total da população [notem que apesar de tudo existiriam designers! hehe].

Mas eu era apenas uma criança. E não compreendia a totalidade e os pormenores das coisas. Porém, ainda assim, eu tenho o sonho de viver em uma cidade (espaço) limpa com uma sociedade justa e digna. Só que agora eu custo a entender, por exemplo, por que desviam o curso dos rios e por que tem gente que suja a calçada de sua própria rua. Claro que pra algumas dessas perguntas eu tenho respostas – nem sempre satisfatórias -, mas para algumas das restantes é o que o meu trabalho no decorrer deste ano pretende desvendar. O principal objetivo, se é que eu posso hierarquizá-los, é discutir o poder da interferência do designer no meio social (nesse caso) urbano para melhorar as relações entre pessoas, e pessoas e seu espaço (incluam também outros seres vivos que estão diretamente ligados tanto às pessoas quanto ao espaço). É uma busca da afirmação da cidadania, da convivência harmônica, para que de fato indivíduos sejam cidadãos e se orgulhem disso. No meio-fio dessa busca, inclui a discussão do papel do designer como profissional, que ainda hoje é tão incompreendido, inclusive pelo próprio designer.

Por isso tudo, nomeei ou codinomeei (hehe) o projeto de “amar.elo”. Como diriam os Beatles, all you need is love. E eu os parafraseio, generalizando: todos nós precisamos ‘amar’ – e amar mais. Leia-se aqui amor como cuidado, carinho, cumplicidade, respeito, fraternidade. E esse amor deve ser estendido a todos, sem exceção, para que aquela utopia de “sociedade equilibrada” se torne cada vez mais palpável.

E aí entra o papel do ‘elo’. Na verdade. Dos elos, no plural. Somente tomando iniciativa, e constituindo elos de amizade, solidariedade e respeito, estimularemos a reciprocidade e o entendimento do outro; atitudes essas, que acabam com desavenças e diferenças que não acrescentam em nada para o exercício do bem.

E por fim, amar.elo é amarelo, é a cor chamativa, expansiva, é um alerta, um aviso, a precaução, a prevenção, uma ponte, uma ligação, um meio-termo, um intermédio entre polaridades (sim, é um trocadilho de designer, e ainda verbovocovisual! hehe).

Resumindo: é um projeto que incita a discussão, ao mesmo tempo em que alerta a sociedade, sobre a fragilidade dos laços humanos nos dias de hoje, que se volta contra ela na forma de descaso e abandono, priorizando a individualidade ao invés do coletivo. E a saída talvez seja compartilhar um sonho que não seja nem creme, nem dourado, mas sim, amarelo.

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